SOOPA BOOK/FILM (Book+DVD)
by SOOPA

Out now, the SOOPA Book!

Mapping out over a decade of our activities, it comes in a beautiful embossed golden cover, with more than 200 pages of illustrations, photos, interviews, essays and interviews. 

Includes a DVD with a 1 hour film/documentary on SOOPA-associated bands and projects!
Limited to 200 hand-bound, numbered copies.

FEATURING:

  • The Third Rhythm, by Filipe Silva
  • Fanfarra Recreativa Improvisada Colher de Sopa, by Jonathan Saldanha and Filipe Silva
  • ECHO, by Jonathan Saldanha
  • Cargo Cultism, by Benjamin Brejon and Manuel João Neto
  • The Work, by Benjamin Brejon
  • Electricity and Psychology, by Benjamin Brejon
  • Who Are Herzbeat Hotel?, by Filipe Silva and Jonathan Saldanha with Damien Yates and Anton van Ringe
  • BEAST BOX, by Benjamin Brejon
  • Hollow Earth, by Ewen Chardronnet and Jonathan Saldanha
  • United Scum Soundclash, by Scott Nydegger
  • Limb Shop, by Benjamin Brejon

Also featuring illustrations and collages by Jonathan Saldanha, Dayana Lucas, Miguel Carneiro, Dario Cannatá, Miguel Cardoso, João Maio Pinto, José Feitor and Sílvia Prudêncio.

The film features interviews, concert footage and archival images with musicians like Raz Mesinai, Mark Stewart, Scott Nydegger and Steve Mackay and bands like Mécanosphère, HHY & The Macumbas, United Scum Soundclash, Besta Bode and Herzbeat Hotel, sourced from various times and places in the past decade. 

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Press article

Não Lhes Dêem Soopa

O que pensar de um coletivo de artistas sonoros e intermedia que se apresentam a si mesmos como «agentes fantasma» ou «cosmonautas mortos em órbita» e aquilo que fazem como «ficção científica doméstica», «cultura tradicional fabricada», «mapeamento de territórios invisíveis» e «animismo radiomagnético»?

Talvez que vivem num universo paralelo a este em que consultamos os extratos de conta do multibanco para verificar se é possível pagar o IVA e em que atiramos o cinzeiro à televisão para calar as mentiras do primeiro-ministro? A resposta só pode ser dupla: sim e não.

Sim porque os mentores do Soopa agem no mundo à parte da contracultura, agora que o chamado underground renasceu das cinzas em que se tinha convertido após as fissuras abertas nos idos anos 1960, por de novo vivermos uma planetária crise económica, social, ética e de princípios e conceitos, provocada pelo atual estádio de evolução de um sistema organizacional que teima em não se deixar morrer apesar de já «cheirar mal», o capitalismo.

E não porque, afinal, lida com o aprofundamento de questões que nos são vitais enquanto seres humanos, escavando mais fundo nas nossas consciências e na nossa psique.

Movimentos de contaminação

O coletivo Soopa nasceu no Porto há mais de uma década e tem-se constituído como uma «proteifórmica e multicéfala plataforma artística de dimensão internacional» que é, em simultâneo, uma incubadora de criadores e pensadores, um laboratório sonoro, visual e performativo, um programador de eventos e uma editora discográfica.

Os seus principais responsáveis, Jonathan Uliel Saldanha, Filipe Silva, Benjamin Brejon, Cláudia Martinho e Dayana Lucas, deram forma a toda uma «cosmologia» musical (a terminologia é deles) em que encontramos projectos como HHY & The Macumbas, Mécanosphére, United Scum Soundclash, Herzbeat Hotel, Besta Bode e Beast Box, entre vários outros de que mais adiante se falará.

A par e passo, e porque hoje só faz sentido reflectir e actuar globalmente, lançando pontes a associações artísticas congéneres em outros centros nevrálgicos, como a americana Radon, e a músicos / artistas como Kenneth Anger, Raz Mesinai (Badawi), Steve MacKay (The Stooges), Mark Stewart (The Pop Group, The Mafia),  Nyko Esterle (Ripit), Scott Nyggerer, Massimo Pupillo (Zu), Arrington de Dionyso, Marcelo Aguirre, Damo Suzuki (Can) e Eugene Chadbourne, para só referir uns quantos.

É todo um movimento que vem contaminando a cena cultural portuense, portuguesa, europeia e mundial, ignorando fronteiras geográficas e até especificidades culturais. Neste âmbito, verifica-se também um atravessamento das várias tipologias da música dos nossos dias e até da história da música – não só a atividade Soopa é oblíqua aos géneros e estilos como cada projeto se propõe como um híbrido.

As combinatórias podem variar, mas de alguma forma estão presentes o death metal, o punk, o free jazz, a improvisação não-idiomática, a eletrónica de pesquisa, o hip-hop, o dub, a música erudita contemporânea e aquilo que é apresentado como uma «reconfiguração» das tradições do Oriente.

FRICS: Fanfarra Recreativa Improvisada Colher de Sopa

Alguns fatores se repetem no quadro conceptual dos agrupamentos Soopa, com destaque para o ocultismo, traduzido em práticas ritualistas e místicas moldadas no vudu haitiano, a visão analítica, senão mesmo desconstrutivista, da cibernética e não só o psicadelismo rock e folk herdado da década de 1960 como a dope culture que lhe está por detrás.

Influências centrais são as de visionários como Hildegard von Bingen, William S. Burroughs, Sun Ra, Jorge Luis Borges, JG Ballard e Rammellzee.

Como escreveu Hans van der Linden sobre o fenómeno Soopa, não se trata apenas de música, ou das suas associações com, por exemplo, o vídeo e o teatro, mas de um «uso dos sons que tem o propósito de ligar as pessoas e de manipular a realidade», ação política e magia associando-se e confundindo-se.

Inspirando-se na Santería sul-americana, Saldanha, Silva e seus parceiros desenvolveram a noção de «terceiro ritmo» (em alusão ao «terceiro olho» do hinduísmo): «Os padrões da percussão cerimonial consistem na articulação de dois ritmos independentes tocados por cada mão, sendo o ritmo “real” aquele que é construído pelo rácio de ambos. Também o Soopa é a relação dos diversos elementos do nosso trabalho, das nossas perceções e das nossas vidas.»

Transversalidades

Besta Bode

As transversalidades estilísticas da nebulosa Soopa começam logo com Jonathan Uliel Saldanha. Tendo as vocalizações, os órgãos e as programações eletrónicas dos Besta Bode a seu cargo, este multi-instrumentista é acompanhado pelo guitarrista Filipe Silva (neste contexto, pois em outros podemos ouvi-lo a tocar teclados e percussão) e pelo baixista Rui Leal na tarefa de cruzar o grindcore, já por si uma mistura de punk e metal, com o chamado math rock, ou seja, o rock de abordagem experimental.

Apresentada publicamente em festivais de heavy metal e em encontros pseudo-satânicos, resulta uma música que é tão visceral no seu expressionismo quanto «vanguardista» em termos de elaboração. Algo que já foi apresentado como um mix entre Napalm Death e Amon Duul II.

Sob o nome HHY, Saldanha recorre às técnicas manipulativas do dub, tal como congeminadas por King Tubby e Lee “Scratch” Perry, para se situar no âmbito de um hip-hop alquimicamente corrompido pela «heavy bass pressure» de um Bill Laswell, pelos ragas indianos e pelas atmosferas das bandas sonoras dos filmes de John Carpenter.

A fórmula tem uma versão a solo, outra com convidados especiais (Mesinai, Nydegger, Esterle, Mackay, Stewart) que se transmuta consoante os inputs que estes lhe dão, e outra ainda com a trupe The Macumbas, que faz precisamente aquilo que o nome dá a entender: batuque de transe.

No projeto Fujako, Saldanha associa-se a Ripit para mais uma incursão no hip-hop cheia de eco e de subgraves, alternando as passagens de pulsação à desfilada com paisagismos terrificantes, volta e meia intervindo MCs como Sensational, Seraphim, Cheravif e Native.

Em nome próprio, cria uma música de dimensão épica e orquestral, embora de carga Dada, em que explora todas as suas capacidades de execução (teclados, eletrónica, tablas, percussão, trompete, eufónio, flautas) e de exploração das tecnologias de estúdio. É como se Angelo Badalamenti, Pierre Henry, Penderecki na fase neo-clássica, os Ground Zero de Otomo Yoshihide e os Scorn se reunissem na mesma sala de ensaios.

Como já afirmou: «A minha principal ferramenta é a mesa de mistura, o instrumento dos instrumentos, com todo o seu poder de “rooting” de fontes sonoras, de transformação do som em eletricidade.»

Jonathan Uliel Saldanha é igualmente um dos contribuintes da FRICS, acrónimo de Fanfarra Recreativa Improvisada Colher de Sopa, uma sui generis e humorística banda de marcha que tem como propósito inocular as suas componentes jazz, funk, rock e noise com a psicadelia professada por Timothy Leary e Terence McKenna. Muito embora, em vez do LSD, a substância utilizada seja o vinho tinto do Douro…

Se imaginarmos uma colaboração entre a Arkestra de Sun Ra, a filarmónica do filme «Underground» de Emir Kusturica e os Swans, andaremos perto do que fazem Saldanha e, de novo, Filipe Silva com o saxofonista João Martins, os trompetistas Álvaro Almeida e André Rocha, o trombonista João Tiago, o manipulador de sintetizadores João Ricardo, o contrabaixista Henrique Fernandes e os percussionistas Gustavo Costa e João Filipe, mas com um reforço da vertente kitsch e popular que já os levou a colaborar com a Fanfarra S. Bernardo e com José Cid.

O ícone do nacional-cançonetismo surgiu num dos mais importantes concertos da FRICS com uma equívoca qualidade: enquanto pai espiritual da música pimba, com certeza, mas também como responsável por um dos grandes marcos, a nível internacional, do rock progressivo, o álbum «10 000 Anos Depois Entre Vénus e Marte». Para todos os efeitos, a ambiguidade é uma habitual estratégia Soopa.

Mécanosphère com Adolfo Luxúria Canibal

Reencontramos Saldanha nos Mécanosphère, juntamente com as baterias de Benjamin Brejon e Gustavo Costa e as vozes de Adolfo Luxúria Canibal (Mão Morta) e Mark Stewart. Talvez o mais conhecido projecto Soopa, é também uma das maiores alucinações do colectivo. Funciona como se um foguete desgovernado atravessasse os invólucros do hip-hop, do rock, do jazz e do concretismo nas suas «transmissões “drone” trans-espectrais», para aproveitar apenas a carne fornecida por essas famílias musicais.

Todo e qualquer utensílio que produz som é utilizável, dos computadores e samplers a sirenes, cornetas, estática radiofónica e geradores, para além de uma parafernália de percussões.

Quando os Mécanosphère são reduzidos à parceria Saldanha / Brejon, temos os Beast Box. Entre a performance e a instalação, as suas aparições públicas têm carácter sinestésico, com encenação dramática e desenho de luzes, contribuindo para os espectáculos de ilusionismo apresentados o actor Diogo Dória, Manuel João Neto e Ewen Chardronnet.

United Scum Soundclash

Substituído Benjamin Brejon por Scott Nydegger, ficamos com o núcleo duro dos United Scum Soundclash. A lógica construtiva é a dos cut-ups de William S. Burroughs e Brion Gysin, em processos de colagem e «narrativas para a mente» nas quais podemos reconhecer tanto o free jazz como o stoner rock, ora com figurações étnicas, ora indo aos extremos do noise.

Uma boa parte dos parceiros internacionais do Soopa tem sido chamada a intervir, nomeadamente Steve Mackay, Sam Lohman, Vincent Paternostro, Dan Kauffman, Noah Mickens, Jason LaFarge, Kamilsky e John Sharp. Filipe Silva também aparece, bem como Miguel Cardoso e a sua fabricação sonora por meio de código digital, através do sistema SuperCollider.

E lá estão Jonathan Uliel Saldanha, Filipe Silva, Gustavo Costa, João Martins, Henrique Fernandes e João Filipe no Mental Liberation Ensemble, célula dedicada a uma improvisação que se pretende livre e por isso mesmo não recusa nem qualquer idioma que possa surgir nas suas incursões, nem a ausência de uma linguagem musical reconhecível.

O grupo incorpora sempre um convidado especial, tendo feito história as sessões em que estiveram envolvidos Rafael Toral com os seus amplificadores adaptados, Carlos “Zíngaro” com o violino e Alfred “23” Harth com o saxofone tenor, o clarinete baixo e o laptop.

Evocações xamanísticas

Saldanha fica-se por aqui, mas Filipe Silva é o protagonista da HOMO, ou Hysterical One Man Orchestra, podendo a actividade desta ir de evocações xamanísticas com uma guitarra clássica munida apenas de três cordas a brutalistas descargas de feedback.

Pelo seu lado, a música electroacústica de Gustavo Costa abriga-se sob o nome Most People Have Been Trained to Be Bored.  A área de ação é a da música «clássica» contemporânea, com assumidas influências de Iannis Xenakis e Giacinto Scelsi. Não fosse Costa um ativista Soopa e teríamos aqui um motivo de surpresa, dado o seu passado na banda de trash metal Genocide.

Gustavo Costa e o já aqui referido Henrique Fernandes, mais o vocalista, precisamente, dos extintos Genocide, Luís Gonçalves, juntam-se a João Martins em outro combo de nome curioso, Lost Gorbachevs. O que tocam é um jazz speedado claramente marcado pela audição de John Zorn e de dois grupos deste, Pain Killer e Naked City.

Não espanta, sabendo-se que três destes músicos participaram com Zorn no lendário Cobra, encontro realizado na Casa da Música há meia dúzia de anos. Ora, o que nos oferecem são riffs forjados com o apoio de um potenciómetro e métricas endiabradas, muitas vezes em temas de curtíssima duração que mais parecem violentas ejaculações. Tudo é compactado em ritmo e em grito.

Na nebulosa Soopa cabe ainda o duo Herzbeat Hotel, constituído por Damien Yates e Anton van Ringe, dois antigos estudantes de teologia muito interessados no fenómeno da transmutação. Com algo de Moondog e Harry Partch, o que propõem é uma estranha música sacra resultante da baralhação dos tempos e das culturas. Confirmando que vivemos numa nova era barroca, trazem o Renascimento para o século XXI.

Polvo com muitos tentáculos, o catálogo de edições do Soopa abrange estas e outras formações. Entre elas estão as duplas de improvisação radical formadas por John Hegre (Jazzkamer) e Marcelo Aguirre e por Mathieu Werchowski e David Chiesa. Também a Spiral Joy Band, fundada por dois elementos dos defuntos Pelt e como estes movimentando-se nas águas do weird folk, e os agrupamentos de noise music Wolf Eyes e Hototogisu.

Pelo caminho terão ficado os Faca Monstro de Jonathan Uliel Saldanha e Pedro Augusto, fascinados pelas relações entre a rádio e os fenómenos paranormais, os Red Albinos, os Ohmalone e o Klank Ensemble, organizados à volta de João Martins, bem como os Two White Monsters Around a Round Table de Henrique Fernandes e João Filipe.

Aparentemente já desligada do caldeirão Soopa está a Stealing Orchestra, apesar das presenças de Gustavo Costa e Fernandes nas fileiras deste autêntico laboratório liderado por João Mascarenhas. Com base no sampling, vem procurando ir ao encontro da música popular portuguesa, tendo recentemente tido a colaboração de nem menos do que Rodrigo Leão e Ana Deus (Três Tristes Tigres).

Concluindo esta prosa que já vai longa, um pedido: por favor não dêem soopa a este pessoal. Alguma da mais entusiasmante, intrigante e louca música feita por estes dias está a ser criada por eles…

Rui Eduardo Paes

SOOPA BOOK/FILM label

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Jonathan Uliel Saldanha / HHY

Besta Bode

Fanfarra Recreativa Improvisada Colher de Sopa (F.R.I.C.S.)

Mécanosphère

Mental Liberation Ensemble

Herzbeat Hotel

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Beast Box

Fujako

HHY & The Macumbas

United Scum Soundclash

HOMO / Hysterical One Man Orchestra